sexta-feira, 8 de março de 2013

A primeira canção



A primeira canção

teu nome sobe cada manhã
aquece o mundo e põe-se
só no meu coração
sol no meu coração
Juan Gelman

Para Toño

A voz pré-natal lançou-se contra a macieira
e ecoou no valejo e nos meus dentes de leite.
Estatelou-se meu coração contra o milho-miúdo
e ainda te amo exactamente da mesma maneira
substância de mim
meu primo carnal
trinta anos depois.

Não importa que me leves tantos anos
sais e entras pela entrada do pátio como outrora
fazes-me um aceno para me oferecer um figo fazes-me
cócegas
apareces de súbito no dia da cozedura
e a mim incham-se-me as pequenas glândulas do amor
como a massa do molete pequeno
sentas-te à mesa diante da lareira
não importa que me leves tantos anos
pegas-me ao colo
como se te prendesse na palma da mão um meteorito
e faço-me crescer sozinha
sussurro ao meu esqueleto no escuro da noite fecha peço-lhe
leveda leveda:
quando for grande hei-de ser a tua noiva pequena.

Tinha três anos.
inventei a primeira canção para ti.
Ouviram-ma cantar os piscos de peito-ruivo
o incêndio ouviu-ma
cantei-a na raposeira
no campo no corredor da casa na horta
ouviram-ma o escaravelho e a traça
e não tive vergonha.

Não importa que me leves tantos anos
que ames outra
que já não nos vejamos
que não te lembres do que te cantava
pouco importa
ainda te amo exactamente da mesma maneira
meu primo carnal
nas minhas veias vives como um vendaval para sempre
porque não importa
inclusive
que tivesses morrido há anos
e não me desse tempo
a crescer o suficiente.

olga novo


(ortografação: carlos silva)