domingo, 17 de março de 2013

Estranhas previsões

Num futuro não muito longínquo, uma bolha de tempo artificial encerrará todos aqueles que quiserem ordenar-se sacerdotes da sua ilusória extinção. O engenho assemelhar-se-á a um útero gigante e suavemente tecnológico que recriará as noções de espaço-tempo durante as famigeradas condições pré-natais. Os céus das grandes cidades encher-se-ão de balões e aeróstatos transparentes, medusas e receptáculos maleáveis, consoante as necessidades dos utilizadores e o tamanho das suas ambições e necessidades. Ao fim de um determinado período de tempo, acordado entre o utilizador e a agência de flutuação, a bolha rebentará automaticamente e um pára-quedas abrir-se-á ao sabor das circunstâncias. Para que a experiência não exceda os limites da dependência e não promova a ociosidade radical, durante a queda os utilizadores serão injectados com instruções que os reintroduzirão nas regras da realidade. Ao longo desse processo a memória da experiência autodestruir-se-á. Tudo não passará de um sonho vivido e constatado por todos, mas incapaz de ser recordado por ninguém. Para aqueles que olharem para o céu e, suspensos e assustados, o virem repleto de bolhas de tempo artificial, carregadas de seres humanos em obscenas e inexplicáveis posições fetais, a esses ser-lhe-á automaticamente administrada uma dose de amnésia local, e, ao mesmo tempo, será accionado um novo ponto de atracção no cenário. Por exemplo: uma gaivota que passa ou uma nuvem que ameaça chorar.

André Domingues