sexta-feira, 1 de março de 2013

O Bisonte de Altamira

A fera fornida de uma locomotiva herbívora: potestade e butim de proteínas. gozando dos reais arrimos da caça exclusiva, o bisonte lambe no córrego a chaga aberta pela flecha cega. acompanha o homem da pólvora à pedra. vão suas peles sobre corpos e frestas, despojos sob neves de inúmeras eras. de faro bufante e olhos gélidos, ele enxerga cheiros até na relva mais úmida. aos cercos da caça nem sempre sucumbe. ouve ao longe o passo oculto que o espreita e desconfia ruminando gravetos, ossos que ele pisoteia sob as cotas da lã feita de sua juba. o bisonte foi o leão bovino das tundras.

em sua bolha de couro e sangue, o bisonte entre manadas de carcaças. de suas omoplatas surgiram machados. o Minotauro e o Ápis foram seus melhores disfarces, bem como os troféus dos taxidermistas mais hábeis. o apojo do seu leite consagrou a primeira libação à tauromaquia. quem o bebe em seus cornos inventa o copo e a xícara. sua ossatura é inteiramente granítica (quartzo, feldspato e mica). quando estático armazena-se em fúria e porfia. zaino um bisonte em seu próprio sangue se pinta.

no touro do holocausto, no búfalo do arado ou na bossa do zebu no pasto, a longa estirpe do bisonte, a prima letra de todo nome: o áleph, o alif e o alfa. semítico, grego ou fenício, em carne e osso o bisonte é começo e princípio de um A já sempre escrito desapercebido, domesticado e dócil, mugindo como a mansa vaca de um sítio. mas ocultando a dura passagem do vulto ao signo, nosso estreito de Bering entre a caverna e o livro.