sábado, 6 de abril de 2013

o cordeirinho morto


Aprendi
desde pequena
a separar o carinho da lã
chegado o momento
aprendi
que podia brincar e vê-lo saltar e pastar
e dar-lhe mesmo um biberão feito
com uma velha garrafa de cerveja

mas chegado o momento
sabia
que devia
não saber
não perguntar por que não raiava já
aquele círculo do prado
e só havia ali a sombra do ar na erva…

Mamei a lição
da lei predadora.

Agora o teu sangue canta nos meus ossos.

Aprendi
a não esperar nem pedir mais
que o dia que se dava
e aceitar depois
um sentimento carnívoro

Aprendi a comer-te

e agora o teu sangue canta nos meus ossos.

Aprendi a não chorar sequer
a desaparecer discretamente entre as bonecas
no instante em que sabia
que tinha de fazê-lo.

Aprendi a ver o sangue no avental da mãe
a ver lavar a faca na torneira da cozinha
o cheiro da morte das mãos
do meu progenitor
aprendi a deixar que essas mãos me acariciassem

a saber que também tremem quando te enganam
e te chamam com voz doce
para o pátio
                      onde ainda ronca
o tractor do nada.

Aprendi a saber que também aprenderam
a não perguntar
a não ouvir os berros da ovelha sozinha como uma máter triste
no fundo do cortelho.

A compreender que o cão lambesse
o pouco que restava de ti no chão
as vísceras
que ainda conservam a memória das cócegas
que te faziam os meus dedos no teu pequeno ventre    cordeirinho.

Mas agora o teu sangue canta nos meus ossos
a noite expurga-me
ovídeos que nunca vi
parecem-se com os meus glóbulos
vermelhos
do teu sangue

Pois a mim
ensinaram-me a ser
aprendendo a comer-te.

olga novo

[vertido do galego por carlos silva]