terça-feira, 21 de maio de 2013

A Voz



haja espelhos na voz
a antiguidade que abre a alquimia das bússolas e dispersa o ouro das ampulhetas
quando a criança raia e todos os planetas amanhecem exactos sobre o berço
de onde a transparência do respirar prolonga cada quarto de abstractos deuses
é essa abstracção de deuses que as sombras irão deslocar as pontes e o verde das portas
dissimuladas de nortes irão parecer claras e seguras
quando é só nos originários poços cheios de água que as mãos experientes precipitam
a limpidez do esforço

haja da morte o húmido silêncio
apenas a luz sobre as folhas no reservado vento inútil
que a terra tem sempre mais seiva com que bombear os caminhos
haja o testemunho do sal ainda no interior dos búzios gastos
mesmo as arcanas torres do primeiro dia nos sótãos cheios de asas
a arruinar tudo

haja a voz deliberada
em cada canto como a chuva
em cada dedo no limiar em cada olho
haja a voz
repleta de derribamentos de bichos de mordeduras
em ruinas haja a voz
ainda que as sombras estiquem sobre os berços uma noite tremenda
ainda que as unhas façam barulho nas pálpebras mórficas das estrelas
ainda que os esgares e as mãos vacilem nas ampulhetas douradas
haja a voz a rosa claraboia, o pé nu na dança, o caracol arruivado da memória,
que edifica suas sanguíneas colunas - da garganta até deus
porque essa voz primordial acontece na insónia e é na insónia que ela se nutre
de si mesma

a cada bago de ouro preferir inutilmente cada palavra
cada rosa palavra para a láctea travessia

haja a voz mesmo na insónia
é no horror da vigília que a ideia desgarrada opera:
acorda-se no meio da conspiração de deus e encontra-se o maquinal deus do verbo Fazer
em tudo quanto se pensa e deus vai-se distraindo
e é nesse instante de absoluta apatia que o insone pode detê-lo
e eis que, alquebrado o universo, a voz inteira resplandece