sábado, 18 de maio de 2013

Memento mori

Eis a memória do teatro-anatómico, a arquitectura desenganada dos nossos actos. Um artista, um performer, um homem atlético e saudável, cheio de qualidades, interpreta o papel da vítima de um colapso. Está deitado na bandeja do asfalto, repousa motu próprio, inanimado. Faz-se de morto. Deixa-se trespassar pela curiosidade mórbida de quem passa. A rua é muito movimentada. Em breve ele fabrica ao seu redor o círculo apócrifo do socorro ignorante. Até que alguém perfura subitamente o círculo e grita que é médico, a única fórmula de socorro autorizado. Este homem também é um actor. Ajoelha-se ao lado do homem deitado, mede-lhe o pulso, olha para o relógio, depois para as nuvens, depois para a multidão, novamente para o relógio. A menos de cinco metros de distância outro homem cai desamparado no chão. Abre-se um novo foco de curiosidade. Repetem-se os mesmos passos: gente aflita em redor, alguém que surge da multidão capaz de atestar a gravidade do colapso.
Em pouco tempo aquela rua enche-se de homens caídos no chão, gente à volta, médicos impostores, falsos diagnósticos de morte súbita confirmados.
No extremo norte daquela rua movimentada há uma igreja. No alto da sua torre de alabastro distingue-se um conjunto de homens de bata, munidos de binóculos e espanto, que aplaudem efusivamente a lição.

André Domingues