segunda-feira, 27 de maio de 2013

monocromático verde



Em ausência de respiração absorvíamos ar com farinha
neve pura
as papas dos pobres de nós
(quando havia açúcar não havia café):
restos das cartilhas de racionamento metidos entre as mós do juízo
final

o linho da fome
tão branco
rodeava como um anel de Saturno as paredes do estômago
a fita dos chapéus de palha

e afeitos a morrer dia após dia
contemplávamos barro chícharos estrondos demolidores dentro
olhos como maletas nas que o mundo se dava por vencido

uma intuição de lágrimas escondidas nas rugas bimilenárias das anciãs
aturdidas e negras
como os seus vestidos de luto da idade do ferro.
Em ausência de amor
um saiote comido pela traça e pelo sol posto a secar na lareira
continha os últimos escritos de Simone de Beauvoir
e o aborto que matou nas profundezas do palheiro
a Benigna de Remígio.

Os seus lábios amorados que nunca vi
flutuam no meu pensamento
engancha-se-me o coração
querida toda
nunca correspondida
pasto da eternidade que não há
em ausência de amor.

Em ausência de História
escrevíamos em cadernos de lousa que se apagavam com cuspo
e voam formando círculos no observatório de Greenwich
pois em nenhum mapa aparece este nome venenoso
Vilarmao Vilarmao ao pé de nenhum santo padroeiro
na merda da diocese do nada
só há um pátio redondo
a elipse espiritual por onde saem os porcos do cortelho
e um tractor
Lu-Ve 34576 para delimitar o espaço.

Em ausência de Saber
a casa da professora jaz como um cadáver exposto à chuva
com as vigas tentando ainda sustentar a tabuada do três
um problema de aritmética que nunca resolvemos
mas há dias em que uma linha recta traçada num quadro negro antigo
resplandece na sua estrutura óssea
e todo o nosso pequeno mundo grunhe pobrezinho ele
como se rezasse um rosário digno da existência de Deus.

Em ausência de palavra
abundou-nos o berro denunciador que é a noite do mocho
em ausência de pão
em ausência de leite
em ausência de trigo
contra o dia cabrão que se erguia mais cedo que ninguém.

Em ausência de futuro
rangeram as rodas dos carros ou seriam acaso metáforas deterioradas
aves de mau agoiro que ostentam o poder.
O resto dos animais
vomitam sobre os prados
os restolhos de milho com que se criaram
em sinal de dó
sim porque em ausência de futuro
só há ausência
e talvez isto que digo:

Em ausência de ti
de tanto morder ervas para conter o espasmo
digo o teu nome até que a língua seque
e fico toda igual a ti antes e depois do tempo
fazendo a fotossíntese do amor
na vanguarda do nada

onde só se pode viver pintada como um monocromático verde


olga novo


(ortografado em português por carlos silva)