segunda-feira, 20 de maio de 2013

Os raios atravessam a noite com suas cabeleiras brancas


os raios atravessam a noite com suas cabeleiras brancas
fervendo o odor das árvores na floresta vermelha
cada pedaço das cores ampliado com o toque de dedos selváticos
boca que dorme dentro da boca e grito estanque na rocha que tudo draga
vi o canto de luz que ressoa ao longe
fôlego demoníaco que enlouquece os cavalos e derruba estrelas
vi como o lobo veste seu manto de sombras e dilacera
o couro mole da corça filhote
e o olho morto brilhando ainda
o reflexo da mãe ao longe correndo contra a chuva
sentindo na língua o amargor metálico da chuva
a febre fermentada nas entranhas do silêncio
madeiras negras retorcidas contra o céu negro
estalam como ossos crepitando na fogueira
aqui tudo renasce no piscar de olhos do colibri
o sol se lança alto em chamas
com as garras de ouro abrindo nuvens
neblinas e montanhas carbonizadas
varando a gaivota e seu melancólico vôo
atingindo o chão em cheio
os animais dormentes e a hipnose das flores
despertas com o rugido de mares eletrocutados
as árvores pendem com o peso dos frutos
inchados de açúcar
a terra se aquece como o núcleo do planeta
e sua catedral de fósseis
os rios lavam os peixes
fundidos nas pedras
enquanto o sol
cresce dentro da carne
e amadurece o dia
com sua coroa de fênix

Vinicius Lima