sexta-feira, 10 de maio de 2013

sete bicas e doze regatos


o crocodonte da cretácia


Era meia-noite em ponto. Só passavam vinte e sete minutos. Ajustei as calças nas virilhas e dei um passo que me fez tropeçar num meridiano. Levantei-me prontamente e fazia-se uma hora em ponto a passar vinte sete. A coisa começava a apertar.

Um punhado de passos mais à frente estava a loja envolta nas trevas próprias da noite quando esta não tem postes de electricidade a sair-lhe do ventre. Soube do que se tratava porque em cima da montra sombria estava escrito em néones violeta “loja”. Dirigi-me à porta cuja silhueta vislumbrei a custo onde um aviso elucidava que “a porta está aberta”.

Franzi a sobrancelha por desconfiança e saquei as meias de renda que tinha no bolso. Tinha-as comprado recentemente na loja de lingerie mais em moda das redondezas e tinham-me custado vinte trocados o que era um roubo. Mas como o contraste dos feitios me fazia sobressair a pele num rendilhado que me pareceu muito bonito decidi abrir a braguilha à carteira. Isto porque se ocorressem fotografias de flagrante delito ou vigilância de vídeo a coisa ficaria mais sensual para a posteridade. Atitude que achava imprescindível pois as meias de vidro castanhas fazem com que a cabeça pareça uma batata disforme cheia de furúnculos, o que muitas vezes causa risos idiotas quando não tem que ser. De meia enfiada na cabeça e a outra perna enfiada num braço atirei-me à montra de ombro direito teso.

Após estardalhaço e queda quase que gritava pois senti vários pregos a entrarem-me na carne juntamente com os vidros. Achei estranho a montra ter pregos mas levantei-me a custo com dores um pouco por todo o corpo mas em especial no ombro direito, se me abstivesse das dores causadas pelos pregos. Fiquei feliz por sentir que o ombro esquerdo estava em relativo bom estado até porque era preciso transportar o pé-de-cabra que trazia comigo. Instrumento necessário para abertura de coisas que necessitam do recurso a um pouco mais de força.

Ao levantar-me acertei em cheio com a cabeça num candeeiro que estava suspenso e que seguia os traços das últimas modas de luminotecnia em vigor. Era de basalto talhado em lâmina nas bermas. Certamente tinha aberto um foguete na cabeça.

Consegui novamente impedir o impulso do grito e avancei em precaução com o pé direito, o que não me livrou de calcar umas garrafas de álcool etílico que rebentaram e muito me fizeram arder o pé. Especialmente nas partes perfuradas pelos pregos. Mas isso até foi vantajoso pois fiquei desinfectado. Avancei o pé esquerdo com maiores precauções e verifiquei que o tinha enfiado na boca de um crocodonte até à virilha. À minha. Mas só soube disso quando vi luzir os dentes arreganhados do lagarto que rapidamente se fecharam e arrancaram a perna. Como ainda tinha a sorte de ter outra saltei em frente.

De relance verifiquei com as luzes que vinham do exterior a existência de um pequeno lago artificial onde o crocodonte se banhava com metade do corpo de fora. Tinha palmeiras de plástico nas bermas o que achei ser extremamente foleiro para um lago artificial que tem água a sério.

O crocodonte mastigou a perna em três movimentos de bocarra. Passou a língua de uma bochecha à outra e abriu as mandíbulas até às orelhas mostrando que já tinha comido tudo. Como estava escuro não consegui confirmar. Então o bicho avança de repente para mim com o seu andar típico de crocodonte, ou seja, andar em frente pelo método de mexer o corpo para os lados, o que sempre me pareceu tarefa complicada. Vai dai pus-me em fuga ao pé-coxinho.

Quando me apercebi que ele ia ganhando terreno por conhecer o sítio e eu não lembrei-me que não tinha lanchado. O que me poderia fazer bem à saúde. Saquei a sandes de presunto do bolso e atirei-a em direcção à montra. A sandes aterrou do lado de fora e o crocodonte com o seu instinto de perseguição muito típico de crocodonte mandou-se atrás dela.

Suspirei de alívio ao concluir que a operação estava a correr melhor que o previsto.

Segui às apalpadelas devido à escuridão mas também porque era mais fácil apoiar-me com as palmas das mãos que andar ao pé-coxinho. Depois de passar por caixas empilhadas em cima de outras caixas descobri o balcão. Pousei o pé-de-cabra e atirei-me lá para dentro visto não me dar jeito passar nenhuma perna primeiro. Como estava em relativa segurança tirei uma lanterna do bolso e meti-a na boca para ver se controlava a vontade de gemer. Também descobri que me tinha esquecido de carregar as pilhas.

Havia várias gavetas que fui descobrindo pela presença de puxadores. Na primeira que abri logo enfiei a mão mas mais depressa a tirei porque eram agulhas. Como tinha a lanterna na boca não houve problema.

Na segunda pareciam moedas mas eram demasiado leves. Pelo sim pelo não meti-as para a mochila que me acompanhava as costas.

Na terceira eram cilindros com rastilhos. Após pensar bastante conclui que talvez se tratassem de dinamites e enfiei uns quantos para o saco não fosse a saída do sítio tornar-se complicada. Após isso lembrei-me que não tinha isqueiro mas deixei-as estar porque poderia vir a precisar noutra altura em que tivesse lume.

Depois de algum tempo a encher o saco comecei a estranhar estar a vasculhar inúmeras gavetas e não encontrar colares nem brincos. Nem pulseiras. Nem relógios. Ergui um pouco a cabeça para fora do balcão e olhei pela montra. A custo consegui ver uma loja do outro lado da rua com néones alaranjados a dizer “ourivesaria”. Tinha-me enganado na loja.

Elaborei mentalmente a estrutura da rua e conclui que tinha entrado no estabelecimento dos botões e agulhas que ficava mesmo em frente da ourivesaria. Confusão do norte com o sul. De resto tudo corria às mil maravilhas pois já tinha a mochila meia cheia e estava bem pesada.

De outra gaveta saquei umas caixas pequenas mas consistentes que poderiam ser algo importante. Ou não. Não obstante meti-as ao saco. Levantei-me novamente e mal tinha acabado de fechar a braguilha da mochila ouço um som do puxador da porta de entrada da loja que conseguia ver em silhueta com a ajuda dos néones da ourivesaria.

A porta abre com um latido que soube ser do crocodonte. Afinal a porta estava realmente aberta. Mas isso pouco importava porque já estava lá dentro e estava. O crocodonte desata a correr no seu estilo complicado mal me vê. Eu lanço-me em fuga no instante a seguir em pinchos de pé direito depois de pegar novamente no pé-de-cabra. Dei várias voltas às caixas com o lagarto no encalço até que ele ficou demasiadamente ourado e caiu. O que nos crocodontes, animal com quatro patas, significa que pousou o lombo no chão.

Sigo em ziguezagues numa direcção escolhida à sorte e esbarro numa persiana. Isto soube-o porque fez o típico som de persiana quando lhe pregamos uma cabeçada. Mas o crocodonte sai do seu torpor e avança novamente. Felizmente para mim avança para o outro lado. Isto porque um gajo com uma meia de vidro na cabeça entrara pela montra naquele momento. Infortúnio dele ter ficado enrodilhado no meio de inúmeros novelos de lã que pareciam fios de ouro. Mas isso talvez fosse uma sugestão da luz da ourivesaria.

Enquanto o crocodonte comia uma perna ao concorrente apalpei a persiana de ponta a ponta e verifiquei tratar-se mesmo de uma persiana. O crocodonte começa a comer a outra perna ao tipo e eu engato o pé-de-cabra por baixo da persiana enquanto se solta um bramido intenso. Olho para a montra e o tipo já não tinha braços. Era constrangedor o facto daquela meia de vidro castanha lhe conferir um ar bastante patético. A questão da batata. Ou talvez fosse por ter vários pregos enfiados nos olhos. Ora a sorte não é para qualquer um.

Sincronizo o pé-de-cabra com o bramido seguinte que era equivalente a mordedura até ao pescoço. A persiana abre com facilidade. Certamente apliquei a força certa ao pé-de-cabra ou então a abertura foi facilitada devido aos trincos estarem desengatados.

Antes de saltar pela abertura aproveito a vantagem que a escuridão daquele lado da loja me dá e assisto à sequência. Dois bófias abeiram-se da montra. Provavelmente atraídos pelo cheiro a carne fresca ou até mesmo pelos bramidos. Pegam na cabeça do tipo e algemam uma orelha a outra depois de fazerem dois buraquinhos na meia para que elas saíssem. A cabeça estrebucha como um touro com cio de quinze dias a passar e começa a insultar os polícias com palavras que nunca tinha ouvido. Eles não tinham outro remédio. Enfiam-lhe dois balázios na testa. Os buracos começam a escorrer sangue e parece que estão a nascer dois cornichos ao gajo. Os bófias recolhem as algemas e atiram a cabeça ao crocodonte que a engole de uma só vez. Fazem algumas festas no focinho ensanguentado do animal e seguem viagem.

Poucos momentos depois o bicho volta-se para a minha posição depois de lançar umas dezenas de arrotos em mi sustenido com ecos a acompanhar. Eu salto finalmente pela abertura sem fazer um pio enquanto ouço entoarem sirenes a dirigirem-se para longe. Fecho a persiana.

Muito perto de mim mas do outro lado da parede ouço o crocodonte rosnar baixinho enquanto lhe saem sons bizarros do ventre. Soam a moagem de carne com picaretas enferrujadas interrompidas por uma ou outra flatulência em estilo relâmpago seco em noite de aguaceiro.