segunda-feira, 10 de junho de 2013

[AMANHECE]

Amanhece puro
quando os teus pátios circulados de estrelas abrirem as portadas de um amórfico silêncio
e os álgidos assopros da tua treva esticarem os poços e as memórias das águas
e quando subirem pela sombra as incontáveis orquídeas
pelas escadas das lunares e vigiladas pétalas e as difíceis articulações dos seus caules
pelas escarpas de um sono larvarmente branco onde as feras levemente dormitavam
lentas sob o peso dos narcóticos
Amanhece,

Pelas ossaturas que estalaram
quando os lábios sugaram o ouro das antigas metamorfoses ardejadas
quando as orquídeas rastrearam sobre a nuca os dédalos indeléveis destes sangues
e os oráculos tiniram sobre os mármores as alquímicas flamâncias dos espéculos

Amanhece pelas plúmbeas sombras que circulam ao redor da minha morte
das suas mãos liricamente abreviadas, dos seus cabelos plácidos
por onde jorram as oscilações dos graves e líricos incêndios e os últimos despojos dos dilúvios
Aperta apenas uma álea de luas
sobre a faraónica cumplicidade das feridas – essas asas que suplicam entre o fogo
as fórmulas circunscritas da memória levitaram equinócios nas paredes do meu sono
– e eu acordei com os olhos segregados de luto
para que despertasses
(também as aves e os peixes e os lobos)

Que o ouro e o perfume das orquídeas te acutilem sobre as escamas destes pássaros
Que amanheças solarmente sem remorso
com um rosáceo coração desenlutado
e uma corda de seiva tão pura a arvorar-te a extremidade da cabeça
e legiões de aves a inflamarem-te as mãos