sábado, 6 de julho de 2013

Donald sofre




Donald B. sofre variadíssimas profissões: é sempre o “empregado do mês” no seu inferno pessoal; é operador de caixa num supermercado alienígena; é produtor de tédio a tempo inteiro; é criativo na relação com os outros; mas sobretudo é um monarca egoísta, essencialmente ufano e occipital, num reino sem nome, perto do coração das trevas. Donald B. sofre também privilégios: por ser sempre o tal “empregado do mês” no seu inferno pessoal, Donald B. (doravante D.B.) pode sentar-se à secretária do chefe e assistir da janela do seu império à diluição do mundo tal como o desconhecemos, sabotando por isso a coroa asséptica da rotina; enquanto produtor de tédio, D.B. pode dedicar-se também à cultura da melancolia e assim exportar grandes quantidades de inércia para o mundo inteiro; na condição de monarca egoísta, D.B. pode simplesmente existir.
Mas D.B. não faz nada disso. D.B. sofre ainda de alegria artificial. Ironia in extremis. Cócegas inerentes ao cinismo. As suas inúmeras profissões fazem-no rir. Todos os dias, no caminho do trabalho para casa, D.B. sofre pessoas, tempo perdido, intempéries objectivas e subjectivas, visões inclassificáveis e belicistas. Só quando chega ao lar pode, por fim, beijar a paz. Vive junto com um planeta distante. É pai de um transtorno raríssimo.

André Domingues