domingo, 21 de julho de 2013

Nigredo



haveria a resposta para o corpo, despovoado de enigmas, apenas o corpo,
duro sobre as auras mais arcanas, hermeticamente estancado de destino,
oco de alma, dourado, como o alcatrão coagula à luz de uma rua estreita onde bebes e passas
e és noutra aurora escura como noutra vida muito antiga,
o corpo rodeado de livros – o corpo só
ou de mímicos silêncios – o corpo habitado
ou de uma grande solidão prateada – o corpo anoitecido

haveria a resposta para esta carne mendiga
(o eremistério das pupilas acesas pela boca,
da garganta à obra)
se a escrita, já não perplexa entre razão e deslumbramento,
se aguasse e preenchesse com o espaço o mundo
em vez de, matemática de grânulos, se adiar pela ampulheta posta na cabeça,
como se o latejar dos astros fosse suave e trouxesse deus

pertencer ao corpo
no limiar de cada estação, para ser mais ofensivo
arrastar os cometas das palavras pela cauda e dizer
sentem-se aqui que agora mando eu
e coroar a matéria de maior vanidade do que a própria semântica
dizer agora oiçam e não dizer nada, e elas que atribuíssem ao silêncio a culpa
- do pecado original, da voz, da descrença, dos buracos negros, da geada,
da morte, da vida, das cordas, da língua, da voz envergonhada pela linguagem,
dos vasos cheios de terra, da terra cheia de raízes, das raízes, da origem, da voz inaudita,
da miséria, do mal, do amor, da existência, da criatividade, da criação, dos poetas,
da clemência, da justiça, da caridade, das bibliotecas desordenadas, de haver tantas bibliotecas,
de haver tantos livros, de já tudo ter sido dito, de tudo ser nada, de ainda se escrever para além disso,
dos romances e das histórias perto do fogo, da família e do estado, da religião, de tudo o que é oculto, de tudo ser oculto,
da ciência, da poesia, do nefelibata, do viajante, do cavalo, do mago, do eremita, do sol,
da essência do silêncio que é tão vasta como a própria voz do universo,
como se o silêncio fosse a maior desgraça do universo.
e o corpo está à espera que se cumpra qualquer coisa
o sangue, as trompetas da intuição, os peculiares instintos
de estar no precipício e saber-se ainda a rir,
as veias activas, os pelos cheios da cruel sapiência, da cruel sensatez da natureza
o corpo todo começa a funcionar como ela, sem que um músculo ou um pedaço de cérebro arda de epifania, até à combustão
ser apenas corpo e ser-se tão corpóreo como a nudez vista por dentro, de dentro, para dentro
que com novos escrúpulos a razão finalmente viva pulse de ciúme
e o mundo avance urgente nesse instante como se nunca antes tivesse sido escrito


Constanza Muirin